07 novembro, 2006

As aldeias, o xisto, as casas,
os que lá vivem, os que lá passam...

PASSEIO DE JORNALISTAS no FundãoÉ de louvar em primeiro lugar o mérito do esforço da comunidade do Fundão, para reabilitar algumas Aldeias do seu concelho por forma a integrá-las num Roteiro de carácter patrimonial e de valorização do território construído portugês.
PASSEIO DE JORNALISTAS no FundãoMerecem, por certo, juntamente com a qualidade indiscutível dos seus produtos e da genuína beleza dos seus lugares, destaque e visita.
Mas genuína merecia ser também a reabilitação do seu património habitacional e a revitalização do suporte económico fundamental, que julgo ser ainda a produção agrícola.

PASSEIO DE JORNALISTAS no FundãoSomos conquistados pela beleza doce do imaginário que sobre nós actua ao percorrermos estes lugares.
As nossas muitas carências afectivas, provocadas pela vida urbana, encontram aqui uma pretensa salvação: este reencontro com a Mãe Natureza de que andamos apartados há muito... Mas, e há sempre um mas, não passam de sentimentos passageiros, rápidamente dissipados quando nos deparamos com a nossa incapacidade de renunciar a alguns vícios urbanos adquiridos há já algumas gerações.
PASSEIO DEJORNALISTAS no FundãoQuem poderá dar vida real a estes lugares são os seus filhos aqueles que nela encontram raízes de identidade. É com esses que a verdadeira reabilitação terá sucesso e para esses se deverá criar riqueza - para que não partam e (os que já partiram) retornem, não só na velhice...!!! - e incentivos para um repovoamento com a prata da casa.
PASSEIO DE JORNALISTAS no FundãoO turismo é sem duvida uma fonte de rendimento. Mas não deverá ser a única, porque tem um caracter sazonal e esporádico - funcionando muito por modas... e a sobrevivência das comunidades não pode depender delas.

PASSEIO DE JORNALISTAS no FundãoQuando se fala de recuperação do património habitacional doméstico, o assunto torna-se mais complexo por interferir directamente com um mundo privado do indivíduo e com a sua estrutura social e familiar mais íntima.
A casa, tal como as coisas, não existe por si, existe para servir o homens e é por este criada: um objectos inanimado que só ganha vida pela acção de quem a utiliza, a habita e diariamente lhe imprime alma e transformação.
PASSEIO DE JORNALISTAS no FundãoColocar nestas recuperações a pedra de Xisto (matéria prima utilizada no sistema construtivo cultural) à vista - quando outrora os seus construtores se empenharam em recobri-la com argamassas pintadas de branco, com um sentido estético de mais valia (só não o fazia aquele que, por menos posses, para isso não tinha capacidade econômica) - náo nos levará ao engano acerca da imagem do passado destas aldeias??? Será licito retirarmos os rebocos, as pinturas e os revestimentos das nossas casas de alvenaria de tijolo estruturadas pelos pórticos de betão?
PASSEIO DE JORNALISTAS no Fundão
Na realidade, não parece pretender-se repor a verdadeira imagem mas actuar de uma forma comercial , na tentativa de criação da uma marca facilmente reconhecível e identificadora de um produto que se quer vendável, Mas apenas com dois ou três quartos... não será esta uma actuação fora de escala?
Ora, parece-me de certa forma perverso este pretexto para retirar actuações genuínas dos seu moradores actuais, criticáveis por certo, mas sem dúvida verdadeiras e capazes de fazer reconhecer a realidade deste presente - que um dia será passado - que tem tanto direito de fazer parte da nossa história como o de qualquer outra geração.

Texto: Fátima Veiga (Arquitecta)


Fotos: Antunes Amor (direitos reservados) Clique sobre elas para ampliar

2 comentários:

luantes disse...

É sempre com o maior prazer que leio coisas relativas ás nossas aldeias que teem grandes histórias para ser contadas
Bogas de baixo tambem aldeia de xisto
pode ser vista e admirada no meu endereço

João Dias disse...

Saudações!
Li com interesse o artigo aqui publicado. Sou filho da terra e particularmente atento a este assunto uma vez que estudo arquitectura.
Tal como a autora tenho algumas dúvidas em relação aos caminhos tomados na intervenção feita em Janeiro de Cima... mas também tenho opinião divergente da dela em algumas questões...
Em primeiro lugar, esclareço que a minha proximidade a esta terra possa interferir na minha análise tornando-a parcial...
Em relação ao suporte económico da aldeia, à muito que este deixou de ter base na agricultura. A que ainda é feita tem como finalidade o consumo próprio e praticada por pessoas não-activas (reformados) ou em "horário pós-laboral :P". A grande maioria da aldeia vive dos serviços, com muita gente ligada a construção civil, comércio, restauração e uma pequena minoria ligada à pecuária.

Em relação ao turismo concordo com a autora... a minha opinião pode ser lida aqui: http://www.flickr.com/groups/janeirodecima/discuss/72157600343937165/

Em relação à retirada dos rebocos nas casas de pedra a minha opinião diverge...
De facto, algumas (muito poucas) das casas eram rebocadas pelos seus construtores, mas isso eram excepções (casas de padres, famílias mais abastadas e a própria igreja)... Mas a maioria das casas do núcleo antigo da aldeia foram rebocadas a partir dos anos 60/70 não pelos seus construtores (que a mt já tinham falecido) mas pelos filhos da terra que tinham partido para França e onde aprenderam novas técnicas de construção. Assim a maioria das casas, inicialmente de pedra à vista foram rebocadas, colocaram-se telhados de zinco ou "lusalite" e substituíram-se as caixilharias de madeira, por novas de metal (ferro ou alumínio)… estas alterações permitiram que estas casa chegassem até hoje, sem elas estariam hoje todas em ruína… assim estão lá, alteradas, mas estão lá…
Quanto a mim, embora a minha opinião seja pessoal, pode (talvez deva) ser feito nestes casos, uma recuperação da identidade original da construção… isto não para promover o turismo… mas sim para devolver aldeia uma identidade perdida num curto período de poucas décadas… Constato também que na maioria dos casos os proprietários das referidas casas (na grande maioria já diferentes daqueles que as possuíam quando foram rebocadas) têm agora vontade de as ver com a sua identidade original.
Mais questionáveis quanto a mim são outras intervenções, nomeadamente na igreja. Este edifício centenário, resultado de vários acrescentos sucessivos, viu destruído o seu último acrescento… a torre do relógio! Com a justificação de que era um acrescento! Tal como as todas as outras partes da igreja e onde até já temos dificuldade em distinguir um corpo inicial. Na torre sineira foi ainda retirado o reboco, deixando a pedra à vista… aqui sim oponho-me, uma vez que esta construção sempre teve como intuito (como alias se pode ver pela técnica empregada na alvenaria de pedra) ser rebocada com argamassa. (Foto da igreja aqui: http://photos1.blogger.com/blogger/2615/3420/640/SANY7055.jpg )
Questiono ainda a orientação das intervenções para os edifícios privados. O dinheiro para esta recuperação da aldeia bastante, mas não ilimitado… e muito pouco cuidado foi dado aos espaços e equipamentos públicos, quando o houve, foi através de intervenções superficiais, pouco aprofundadas. Acho que se o dinheiro fosse utilizado nestes casos, de forma bem gerida, e com intervenções de aprofundadas, o exemplo dado pela autarquia nos seus edifícios e espaços públicos, poderia servir de canalizador e exemplo para intervenções de privados pela sua própria iniciativa, estas sim genuínas, de acordo com a vontade e necessidade da população e não “impostas”…
Bom… fico por aqui, desculpem este testamento mas o tema entusiasma-me…
João Dias - joao_dias@msn.com