16 fevereiro, 2009

Uma Invenção para namorar a crise

E não é que, muito antes desta "modernice" do Dia dos Namorados, já havia quem insistisse em namorar?
Em terras do Minho era costume mesmo as moças bordarem o lenço para oferecer ao seu conversado.

Motivos singelos e recados de amor, escritos do mesmo modo como eram pronunciados:

E se o Ouro que se trazia ao peito era uma espécie de garantia ou caução para doença ou outro mal da vida (quase um PPR), também podia ter rasto de jura de amor ou preito de fidelidade. Ouro ou prata trabalhados como se fora um bordado ou uma renda...

Por essas aldeias fora aldeias fora, namoro era no portelo da casa. se fazia à porta de casa. E nas casas mais ricas era conversa (vigiada) de sala, com apropriados móveis. Como esta conversadeira...

... ou esta namoradeira. Que sempre iria permitir uns leves aconchegos sob ao atentos olhares da mãe guardiã de virtudes e falatórios.

Não fossem as necessidades comerciais que nos trouxeram o São Valentim, como é que nós, empedernidos de coração, iríamos aprender a namorar?

O denominado "Dia dos Namorados" é uma invenção recente entre nós, sem qualquer passado, memória ou raiz cultural. Tão recente... que ainda me lembro da sua invenção.

Estávamos em 1982. Já nessa altura se sentia a crise do pequeno comércio - assustado com a chegada dos hipermercados (sem imaginar sequer o gigantismo de Centros Comerciais a que iríamos chegar…!). A iniciativa foi da União dos Comerciantes da cidade de Lisboa que, para isso, pediu apoio à Rádio Comercial cuja redacção nessa altura eu integrava

O riso que me provoca agora quando leio algumas peças jornalísticas (?) sobre este tal “Dia dos Namorados” (ou dia de São Valentim"). Como se, entre nós, ele não se resumisse a uma estratégia (legitima) de comerciantes e afins para adiar encerramentos, falências e despedimentos. E então quando desatam escrever sobre apaixonamentos e romantismos…

Com o apertar da crises, este foi o ano de todos os namorados. E, para um singelo dia, foram meses de campanhas publicitárias. Com o leque de sugestões de presentes a dilatar exponencialmente. Tudo o que era restaurante inventou receitas e pratos especiais para a celebração. Como o dia não tinha qualquer rasto de celebração entre nós, tiveram de deitar mão a tudo o que era estrangeirice culinária ou arremedo de cozinha de autor.

Mas... dos hotéis ao perfumes, dos telemóveis às jóias, dos chocolates aos relógios, foi um corrupio de anúncios. Desta vez, nem as Regiões de Turismo quiseram ficar de fora e ofereceram escapadinhas(escapadelas?) ou love trips para animar o mercado - que... isto da procura interna... vai mesmo mal. Houve até uma marca de automóveis que propôs que você oferecesse uma viatura novinha em folha à pessoa amada (neste caso, independentemente do estatuto de relacionamento, seria mesmo uma verdadeira “com/sorte”).

A este frenesim publicitário ficaram agradecidos jornais, rádios e televisões para quem tal inusitado caudal publicitário constitui bênção e refrigério em tempos de contenção e de seca. E vá de aproveitar a boleia.

Em quase todos eles, a manifestação que veio do frio, mais exactamente da capital russa: "jovens do movimento "Nós" lançarão um apelo a todas as mulheres para recusarem fazer amor com os homens que apoiam a política do primeiro-ministro russo, Vladimir Putin. Se a moda pega...

Ainda por cima não se percebe o castigo quando, como escrevia o Portugal Diário, os homens planeavam "gastar mais dinheiro do que as mulheres" nesta febre namoradeira. Talvez por isso menos o Jornal de Notícias apelava à publicação de mensagens na sua edição online com o argumento (sugestivo?) de que o "Dia de S. Valentim é a altura ideal para fazer uma surpresa ao seu mais-que-tudo". Mas a pensar nos tempos de incerteza e crise estava a a Agência LUSA que, em take disseminado por quase toda a imprensa, dizia que "amor, amor mesmo era se você oferecesse um PPR à sua cara metade". Também o Público referia que o espírito da quadra tinha tocado o coração de governantes israelitas que, em véspera do Dia dos Namorados autorizaram "os produtores palestinianos a enviarem 25 mil cravos vermelhos para a Europa".

E se O Record se fazia eco do lamento de Jessica Augusto que não "pode festejar o Dia dos Namorados com Eduardo, o guarda-redes do Sp. Braga", ausente em Valência, o Correio da Manhã dava voz à esperança da organização do "Eros Porto" de que "os casais adiram em força ao evento". Vá se lá saber porquê...! Mais discreta, a RTP sublinhava que as "propostas no Algarve premeiam os mais imaginativos". E o Diário Digital não hesitava em afirmar que "A amante deste século tem placa gráfica". Coisas...

Realista em relação aos objectivo dos festejos da data o Açoriano Oriental escrevia que o "pequeno comércio tenta resistir à crise" e o Diário Económico avançava uma listagem de "presentes originais para oferecer no dia dos namorados". E se até se entende que o Blitzz achasse que isso de Dia dos Namorados era mesmo para nos dar música e perguntasse "quais as vossas músicas românticas favoritas?", nunca esperei ver o Expresso a dizer: "Saímos para a rua para tirar a temperatura à paixão dos lisboetas. Há de tudo"...

Mas o que não percebi mesmo foi aquela notícia que veio lá dos confins do Oriente, acerca daquelas duas jovens, de uma associação de defesa dos animais que se iam despir "nas ruínas de São Paulo, em Macau, para apelar a residentes e turistas que no Dia dos Namorados optem por uma dieta vegetariana". Namorados? Dieta vegetariana? Elas lá sabem…

1 comentário:

ssebastiao disse...

Rui; ainda não sabes mas escolhi-te... passa no "sebastião" e descobre o que tens que fazer!