23 janeiro, 2007

Pelas bandas de Portel... (3)

De Vera Cruz à Amieira
com Alqueva em fundo

IR PARA O PRINCÍPIO


A terra, agora animada pela velocidade e proximidade proporcionadas por um IP, respira depressa. É que se trata de um dos concelhos beneficiados, do lado português, pelo “grande lago” do Alqueva, como aqui e ali se ouve com uma entoação de orgulho (e expectativa, que, por enquanto, é dominante). Ou seja, o marasmo de outrora, com verões em que a torneira nem pingava, dá lugar, a pouco e pouco, a barcos com motor fora de borda, projectos de empreendimentos turísticos, um mar de dinheiro. E tubarões, que esta água toda atrai estes bichos: os grandes no ramo das férias e lazer instalam-se.

PASSEIO DE JORNALISTAS em Portel PASSEIO DE JORNALISTAS em PortelPASSEIO DE JORNALISTAS em Portel
O presidente da Câmara quer mostrar-nos que é verdade. Leva-nos pela mão, de passagem pelo património de Vera Cruz, mais as suas heranças dos Hospitalários e o pedaço de lenho que sobrou das cruzadas. O antigo centro religioso e fortaleza lá continua, agora sob o olhar atento da autarquia que não deixa de apostar no lado seco do concelho, porque o turismo certamente não será só ir a banhos na barragem. Portanto, avançam projectos de estudo e divulgação.

PASSEIO DE JORNALISTAS em Portel - Vera CruzPASSEIO DE JORNALISTAS em Portel - Vera CruzPASSEIO DE JORNALISTAS em Portel - Vera Cruz
Os exorcismos que deram fama a Vera Cruz estão hoje fora de moda, mas há a memória dessa crença que levava gente de todo o lado à terra, à espera de influência benéfica por sortes do pedaço da vera cruz de Cristo – alegadamente colhido nas andanças de conquista da Terra Santa, ou de Fé extremada.

PASSEIO DE JORNALISTAS - Vista de Alqueva na AmieiraPASSEIO DE JORNALISTAS - Vista de Alqueva na Amieira
E Alqueva, enfim, que eu nunca tinha visto assim, a dar água pelos joelhos da Amieira, uma das freguesias portelenses, em margem que era do Degebe, e onde assentou arraiais uma das tais empresas viradas à água. Porque se trata de um relato, não de um relatório, deixem que assinale aqui uma breve passagem por uma indústria de mel – e que é bom, sim senhores. Até dá para aparecer nas lojas gourmet associado a uma outra etiqueta, lá da Serra da Estrela, o que é prova de estaleca.

CAFÉ PORTUGAL - Melaria da Serra de PortelCAFÉ PORTUGAL - Melaria da Serra de PortelCAFÉ PORTUGAL - Melaria da Serra de Portel

Fotos: Antunes Amor (direitos reservados)
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Pelas bandas de Portel... (2)

Gozo pessoal, divertimento
e o mais das circunstâncias

IR PARA O PRINCÍPIO


Portel, da encosta do casteloCAFÉ PORTUGAL - vista de PortelPois foi. Desta feita escapou-me o Refúgio da Vila. Muitos caçadores por aqueles azimutes, a tropa toda do Passeio de Jornalistas, e o Rui Dias José deu comigo borda fora. Calhou-me uma Casa de Silharcas, albergue em formato unifamiliar que é desfrutado, nestes tempos,
sobretudo por citadinos de uniforme e caçadeira que precisam de colchão por umas horas. Ao alvorecer já eles levantam restolho e fazem o gosto ao dedo. Qual Portel? Qualquer pouso serve.

Nem era desagradável, a casa, apesar de por ali ter passado arquitecto modernaço ou similar. Quem vê o abrigo, de fora, a partir da Rua de Évora, imagina que por dentro há uma daquelas típicas casas alentejanas, mas a porta franqueia-se em espaço aberto de alto a baixo, com mezzanine e tudo, um aparelho de ar condicionado mal situado, e algum desconforto. Enfim.

O hotel rural deu, sim, para um jantar de boas vindas (idas), com presidente da Câmara e tudo, já em mandato renovado no pós-Vidigal Amaro. Agora é o tempo de Norberto Patinho, anfitrião completo, dedicado: ele não desgrudou durante os dois dias e tal desta visita do grupo ao seu concelho. Ou seja, queria mostrar o que tem feito, sem recusar a responsabilidade do que tem sido feito.

E lá renasceu a ideia de tempos idos: como um empreendimento turístico ajudou a dar a volta a uma pasmaceira… O restaurante é o mesmo, mas pareceu-me que para pior. Anima-se por ali a contabilidade em actividades diversas, até em cursos de culinária, e
talvez seja essa a explicação para o falhanço dos comes.Uma sopa de cação em que o excesso de farinha levou o caldo a um estado colóide, ou seja, muito semelhante ao que noutros tempos se preparava para fazer as vezes de cola. Sim, senhores. Mas não foi tudo: umas migas com carne de porco
Norberto Patinho e Rui Dias José
enviavam-nos direitinhos para as mesas de hotel com serviço de bufete. Desenxabido, em que qualquer semelhança com receitas alentejanas era pura coincidência.

Valeu o inesperado: às tantas, o tal senhor presidente da autarquia foi feito saltar do lugar e devidamente introduzido (desculpem a
influência do inglês) pelo co-anfitrião José, com a explicação de que é ele um dos mentores do tal grupo. Mas Patinho lá se explicou, e justificou que todo o grupo estivesse ali para um pouco de serão: eles nunca quiseram ser um grupo tradicional alentejano, assumiram que faziam aquilo
CAFÉ PORTUGAL - Grupo de Cantares Regionais de Portel
Trocada a fatiota...
por gozo pessoal, divertimento e o mais das circunstâncias.

CAFÉ PORTUGAL - Grupo de Cantares Regionais de PortelCAFÉ PORTUGAL - Grupo de Cantares Regionais de Portel
Portel, Querido Portel
- Grupo Coral de Cantares Regionais de Portel
E divertimo-nos, pois. Até trauteei, se pode dizer-se tanto. Portel marcou pontos, mais uns, porque a brincar, a brincar… Até porque anda por aquelas bandas um coral que remete para a tradição do cante alentejano – mas desse nós acabámos por ouvir umas escassas duas modas, na noite seguinte, mesmo assim em versão mitigada. É que o pessoal andava todo azoado com as compras do Natal.

Fotos: Antunes Amor (direitos reservados)
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Pelas bandas de Portel... (1)

Parar ali? Nem pensar...!!!

PASSEIO DE JORNALISTAS em PortelConfesso que durante muitos anos passei pela antiga estrada Évora-Beja muito lampeiro, admirando de longe o castelo de Portel, mas sem me atrever a mirar as ruas da vila. Era coisa instintiva, e nada me demovia – nem comovia – , nem mesmo o pitoresco relatado por médica amiga que ali cumpriu não o serviço militar, porque de quartel não há memória fresca, mas sim o serviço médico à periferia. E Saramago, claro, na sua incontornável volta a Portugal.

É verdade que a curiosidade já andava desperta porque se falava da administração autárquica da terra no pós-25 de Abril, pois um presidente lendário – de tão contestado e odiado por uns, ao mesmo tempo que admirado e encomiado por outros – teria sido eixo de uma reviravolta. Mas que pode dizer-se quando a vontade não puxa?

E se eu andava por ali… Vida de reportagem, pois claro, e quando havia secas lá estava caído, ao largo, entenda-se. E se um novo governo acenava com o arranque próximo da construção de Alqueva também se me dava para tomar a estrada para Moura e ala que se faz tarde. Parava em Cuba, Alvito, que querem? Mas ali, nem pensar. Até que um dia li que estava a funcionar na terra um belo hotel rural, o Refúgio da Vila, que foi coisa rara, de Évora para baixo, por muitos e demorados anos. Exceptuada a bela pousada ex-Enatur, em Beja.
PASSEIO DE JORNALISTAS em Portel
Deu nova volta, a vida, para me demorar num outro projecto que implicava andanças pelas terras do Baixo Alentejo – e lá aboletei e amesendei. Estava a casa ainda nos verdes anos, mas o ambiente cativava, de quartos catitas, confortáveis, cozinha incipiente mas tranquila, demorada como se quer por estas bandas. Fui ficando cliente, do hotel, claro, mas também da vila. Parava, desfazia-me do pó das jornadas, cirandava pelas ruas e ruelas, deitei os olhos lá do alto, tive os primeiros contactos com a rota do fresco que na altura ainda não era. Pelo menos com nome posto.
PASSEIO DE JORNALISTAS em PortelDescobri outros pousos, até que num vizinho restaurante S. Pedro também os comeres e beberes estavam a um passo de justificarem, por si sós, a visita.

De modo que Portel passou a valer a pena, apesar de pairar nos meus ouvidos ecos de um grupo coral, o dos Cantares Regionais de Portel, com umas cantigas que me irritavam – o coral de tradição andava por aí assassinado nuns ritmos que nem sabia dizer. Mas disto eu não provava, nessas escapadelas.

Fotos: Antunes Amor (direitos reservados)
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Vinte dias para perceberem que
este não é um blogue de "spams"!!!

o campo é deles e,
quando lhes apeteceu,
levaram a bola e interromperam o jogo
.

Pura e simplesmente, bloquearam-nos as postagens com o argumento de que este poderia ser "um blogue de spams"!!!. Não percebemos de onde terá vindo tão peregrina ideia e protestámos, estrebuchámos, vociferamos, etc. etc.
Não ganhámos grande coisa com isso: os dia foram passando sem que do blogger viesse ao menos um sinal de recepção das mensagens que lhes fomos enviando.

Só há pouco – quase 20 dias depois - vêm dar o dito por não dito e pedir desculpa por nos terem impedido de usar o blogue durante todo este tempo.

Como se dizia lá em cima, nada a fazer... que a bola é deles e o campo também!
Iremos agora transferir as mensagens que entretanto já havíamos afixado no blogue que criámos para funcionar como alternativa enquanto este se mantivesse bloqueado.

De qualquer forma, já desencadeámos procedimentos que nos ponham a coberto destas embirrações. E o Café Portugal (blogue) passará, dentro de dias, a ser publicado em domínio próprio.
Desde já apresentamos desculpas pelos eventuais incómodos que esse facto irá provocar a quantos fazem o favor de manter nas suas página o linque para este nosso estabelecimento...

Obrigado.

05 janeiro, 2007

Ainda os ecos do "Cante ao Menino" em Peroguarda


Café Portugal - Michel Giacometti
Cancões Tradicionais e Memória Colectiva
O mistério Giacometti
Cancioneiro Popular Português
Associação Michel Giacometti
Museu do Trabalho

Entrai pastores (Cante tradicional recolhido em Peroguarda) Boomp3.com
Interpretação: CRAMOL (Grupo Coral da Biblioteca Operária Oeirense), 1985

Caro Rui Dias José

De facto a minha intenção era que o meu amigo publicasse a minha carta, uma vez que o seu "Café Portugal" tem uma visibilidade que eu ainda não possuo.

Quando se fala de Michel Giacometti, indivíduo de grande qualidade e projecção, de quem gosto muito e cujo trabalho sempre apreciei, que estudou muito da música popular tradicional portuguesa, vem-me à memória outra figura muito importante de um outro caminheiro etnógrafo e investigador alentejano, reconhecido pela enciclopédia Portuguesa-Brasileira e sócio de diversas instituições científicas e culturais, portuguesas e brasileiras, com diversa bibliografia publicada e que, eventualmente por questões políticas, não teve a seguir ao 25 de Abril, o reconhecimento que lhe era merecido.

De quem falo é do Professor Joaquim Baptista Roque, nascido em Peroguarda em 1913. Nesta
aldeia, em 1954, com a presença do Governador Civil de Beja, a Câmara Municipal de Ferreira do Alentejo, reconhecendo todo o seu trabalho e dedicação à causa alentejana e ao seu povo, prestou-lhe uma homenagem descerrando uma lápide que deu o seu nome à Praça onde existe a casa em que nasceu.

Aliás, o Grupo "Alma Alentejana", de que lhe enviei fotos e que foi o primeiro a ter mulheres na sua composição, tendo-lhe então valido alguns dissabores, foi por si fundado em 1938.

Existem cerca de seis mil verbetes sobre o cancioneiro de linguagem popular que ele reuniu em finais de 1947.

Hoje, já depois da sua morte, a Câmara Municipal de Portel, editou em 2000 um CD com cantares alentejanos, que o professor havia recolhido e gravado de forma artesanal, em vinil, na cidade de Beja, em 1948 e 1959, utilizando um rudimentar gramofone.
A maioria do seu espólio está entregue à Câmara de Portel onde se presume venha a existir um museu dedicado ao cante Alentejano.

Em Ferreira do Alentejo, no próximo mês de Março, irá ser atribuído o seu nome a uma rua.

Muito mais havia para dizer e se tiver interesse poderei facultar-lhe a consulta do referido CD ou, em alternativa, poderá solicitá-lo à Câmara de Portel.

Com um grande abraço,

CARLOS GOMES






O professor Joaquim Roque
Rezas e Benzeduras
Os cantares de Peroguarda
Grupo Coral "Alma Alentejana"

30 dezembro, 2006

"Cante ao Menino" em Peroguarda

O email dizia apenas:

Rui

Aqui lhe envio algumas fotos da Aldeia de Peroguarda - Ferreira do Alentejo, distrito de Beja, onde assisti ao "Cante ao Menino".
Gente simples e trabalhadora, muita dela já com avançada idade, procura nestas actividades salvar o cante alentejano.
Um abraço,
Carlos Gomes

As fotografias estão aí. Basta clicar nelas para ampliar.

'Café 'Café 'Café
'Café 'Café 'Café
'Café 'Café 'Café
'Café 'Café 'Café
'Café 'Café 'Café
'Café 'Café 'Café

Agradecem-se as fotos daquela Peroguarda de que se guardam imagens e recordações.
Lá passámos (até lá fomos) diversas vezes. Umas a propósito, outras porque nos apetecia que o caminho para o Alvito fosse por ali, passada Ferreira do Alentejo... E sempre olhando aqueles rostos para perceber as razões de Michel Giacometti querer ser enterrado naquele chão. Ele o corso que viveu Portugal.
Entendemos tudo numa emissão do FEIRA FRANCA em Ferreira: porque se a evocação do investigador e caminheiro já era sentida, a memória do amigo toldou olhares de homens feitos e rijos, rolaram lágrimas nos rostos do coral e embargou-se o cante... Foi preciso ir em frente, mudar planos do som e de conversa, percebendo que havíamos tocado numa corda sensível: o corso era um deles... por isso quis descansar em Peroguarda.
E como foi bonita essa festa em Ferreira do Alentejo onde se misturaram vozes experientes com cantes mais moços... porque há gente nova que sabe cantar à alentejana.

19 dezembro, 2006

18 dezembro, 2006

Fundão: terra de vinho, cultura e turismo

PASSEIO DE JORNALISTAS no FundãoÉ o título da reportagem que Santos Mota assina no último número da revista "O Escanção". Claro que não esquece o esforço da fabricação artesanal dos doces e compotas em Alcongosta...Consultar aqui)

15 dezembro, 2006

À tardinha, até Portel!
mais um PASSEIO DE JORNALISTAS na estrada...

PASSEIO DE JORNALISTAS em Portel

+ PORMENORES

Logo mais à tarde, uma dezena e meia de profissionais da comunicação social faz-se à estrada até ao Alentejo, até Portel.
Ao longo do fim de semana eles vão percorrer as freguesias daquele concelho, contactar aspectos diversos da sua vivência, observar realidades, ouvir falar de projectos... Com tempo para visitar uma unidade apícola, uma queijaria ou uma pequena fábrica de enchidos.

PASSEIO DE JORNALISTAS em PortelNum concelho que albergava já uma parte da albufeira da barragem do Alvito, os jornalistas vão agora navegar o mais novo e imenso lago: da Amieira até Alqueva. Aí visitam a nova central hidroelectrica, aí almoçam no sábado.

O vinho, essa outra riqueza de Alentejo, não será esquecido e a sua celebração será marcada por uma visita à Herdade do Meio, nos arredores da sede do concelho.O concelho visitado pelo PASSEIO DE JORNALISTAS
As boas vindas ficarão a cargo do Grupo Coral de Cantares Regionais de Portel durante o jantar inaugural, logo à noite, no "Refúgio da Vila".

14 dezembro, 2006

De regresso a Portel:
O dia em que a música cortou a estrada...

Emissão do FEIRA FRANCA em Portel
Ninguém diria que aqui passava a Estrada Nacional para Lisboa... Nesse dia... não passou. Com a colaboração da GNR, durante umas 3 horas o trãnsito ficou cortado e a circulação fez-se por vias alternativas.
A música tinha tomado conta do largo, a rádio fazia-se directa e ao vivo: com bandas e corais, provou-se gastronomia local, ouviram-se histórias, contaram-se sonhos, navegou-se Alqueva e Alvito, passearam-se searas, montados, horizontes...
já lá vão cinco anos... Está na hora de voltar a Portel!

09 dezembro, 2006

Outras escórias

PASSEIO DE JORNALISTAS no Fundão

Foi esta paisagem que os verdianos tiveram nos olhos quando, nos anos de 50/60, lhes foi dada a Panasqueira como nova S. Tomé: a roça era então de calhau, de volfrâmio. Tão áspera como a equatorial. Tão dolorosa como o café. Lá em baixo, o rio grande (mais pequeno que o mar) cirandava nos cortes feitos pela erosão dos séculos: é o Zêzere a chamar a memória de glaciares antigos.


Vieram a contrato, mão de obra barata, mais barata que a dos beirões mineiros que teciam revoltas onde andavam estórias dos bandos do Caca e do João Brandão que também por aqui espreitaram. Fugiam da fome sem milho, sem xerém, sem bongolom. E atalhavam assim, a contragosto, o clamor mineiro por melhor salário. Deste modo juntavam a diferença da cor da pele à raiva que resultava dos cadernos reivindicativos que os senhores do minério rasgavam.


Foram mirados de soslaio os cabo-verdianos importados da sua fome insular. Foram hostilizados pelos mineiros brancos. E entre as rochas esmifradas por ganha-pão correu o salitre do racismo. Até que os “negros”, os crioulos partiram. Desgastados. Desgostados.


PASSEIO DE JORNALISTAS no Fundão A PIDE e a Guarda rondavam entre os verdes, espreitando as casas. Os verdianos foram-se embrora. Ficaram as greves de 60 e de 70. Ficaram as memórias que ninguém registou ainda numa placa para mostrar aos de hoje que a Panasqueira não é só paisagem surpreendente, que enche a alma: é lágrimas de gente, lágrimas que também escorreram até ao rio, arrastando consigo suor e misérias.


Tudo isto aconteceu nestas encostas por onde Aquilino e Namora recolheram páginas de livros. São outras escórias que o tempo não pode limpar. É preciso recordá-las.

Diário de Bordo do PASSEIO DE JORNALISTAS NO FUNDÃO

08 dezembro, 2006

Reencontro com Eugénio

Na Póvoa da Atalaia a sombra de Eugénio
CAFÉ PORTUGAL - Eugénio de Andrade– a tua sombra: aqui nasceste menino Fontinha, José de teu nome. E adolesceste. Antes de seguires outros rumos pelos afluentes do silêncio, as mãos recolhendo os frutos das lavouras que foste achando. Vivendo o tempo. Retecendo o tempo. Tu e a tua boina negra, galega. Tu e os teus cabelos brancos, desgrenhados, que encontrei à beira Douro, diante da Foz, onde os encontrei.
Venho à Póvoa e reencontro-te. Tu ainda aqui estás. Sempre aqui estiveste, mesmo quando deixaste de ser menino, de ser José, de ser Fontinha, e te crismaste Eugénio e fingiste que entravas na “pátria dos Andrades”.
Chegando à Póvoa redescubro-te . E contigo recapitulo a lição:

Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
CAFÉ PORTUGAL - Eugénio de Andradeonde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova
”.

Olho. Relembro as mãos. Relembro os frutos. Compreendo. E rezo-te:

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos