13 março, 2007

Comboio, barco, autocarro... até Montalegre!

PASSEIO DE JORNALISTAS em Montalegre - de comboio até ao Porto... Comboio para o Porto, almoço num barco do Douro, autocarro até Montalegre.

Rumo a Barroso.
Em busca de lugares mágicos: Pitões de Júnias, Tourém ,
Padornelos, Ponte da Mizarela, etc.etc. etc

PASSEIO DE JORNALISTAS em Montalegre - depois o autocarro para Montalegre...
Á procura de paisagens, de rostos e histórias de restar ou partir, nas rotas do contrabando, na esteira de uma chouriça, de um naco de barrosã ou de umas couves...

Com Queimada de Bruxa e infusões de plantas várias, para rebater...

08 março, 2007

No Desfiladeiro do Diabo, a Mizarela...

Ponte da MizarelaDe longe avista-se o desfiladeiro do Diabo. Que coisa é aquela que se pendura nas bordas da terra, por sobre o precipício? Ponte não pode ser, porque ninguém se lembraria de construir uma passagem naquele sítio e àquela altura.... É mesmo uma ponte, a da Misarela.
Primeiro contempla-se o prodígio erguido de pedra, a pique, depois... ladeira a baixo para pisar o chão de rocha onde iam passar a noite as mulheres com problemas em engravidar - melhor dizendo, e como ali contaram, dificuldade em prender a criança. Não repito aqui a história das senhorinhas ou dos gervázios porque, muito melhor do que eu, o velho companheiro Lourenço Fontes (o padre Fontes de Vilar de Perdizes, agora também empenhado em tocar para a frente esse acolhedor Hotel Rural de Mourinhe) já passou a escrito a história, quase lenda, quase mito, quase...

E apeteceu trazer aqui uma outra forma de contar/cantar a Ponte da Misarela. Estão ouvi-la na música da Quadrilha, que aqui pirateio... Estou certo que o Sebastião Antunes compreende e releva a falta. Com a mesma simplicidade e generosidade com que apareceu de viola debaixo do braço no Largo da Misericórdia, em Lisboa, para umas canções em directo integral - nada desses playbacks que enxameiam as nossas televisões, todas! Foi mesmo ums acústico, sem rede nem artifícios, no meio do largo, no meio da tarde... já lã vão uns anos.
Ponte da Misarela
-
Quadrilha

07 março, 2007

Itinerâncias (3)

Que S. PEDRO nos valha!

IR PARA O PRINCÍPIO


Saibam todos que o S. Pedro (em Portel) sempre foi meu lugar de paranças nas deambulações alentejanas. Desde os anos de 80, quando eu, quase semanalmente, alentejanava reportagens de Reformas Agrárias, de “leis barretos”, de “reservas”. Ou, mais recente, quando ainda a barragem estava em construção e eu apontava ao Monte Novo do Carvalhal, mais longe, quase à beira da Orada. Ou quando a Feira do Montado me chama. Porque no S. Pedro se come bem, muitíssimo bem: voltou agora a ficar comprovado. Na época, não falho a sopa de beldroegas. É garantido.

PASSEIO DE JORNALISTAS em Portel - Restaurante S. PedroPois no S. Pedro houve agora mesa farta para os convidados que o Rui Dias José fez aportar às delícias de Portel. Banquetagem do melhor: ovos mexidos com espargos ou com cogumelos, açordas e calduchos, torresmos (não, não, nada dessas gordurancas e cartilagens prensadas – torresmos do rissol, torresmos verdadeiros como por estas bandas se faz, virtualhas que sobram ao derreter da banha). Ali se elencaram excelências da gastronomia deste rincão e se desafiaram memoriais.

Juro-vos que no bojo avondo do meu bucho estão as estradas de Portugal. E que nele sobressai uma bandeira: S. Pedro, paragem obrigatória. Nesta visita, como sempre, já refastelado de maravilhas e pronto para mais viagem a prece final: ai, que S. Pedro me valha!

Fotos: Antunes Amor (direitos reservados)
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Itinerâncias (2)

As traseiras do sapateiro

IR PARA O PRINCÍPIO


Café Portugal - PASSEIO DE JORNALISTAS em Portel Café Portugal - PASSEIO DE JORNALISTAS em Portel

Nas traseiras do sapateiro mora o tempo antigo. O sapateiro sobrevive: lojeca de pequena coisa, espaço diminuto. Espreito o interior. O lusco-fusco já adormece Portel, a noite avança tímida, pé ante pé. A porta está aberta, ninguém lá dentro. “O que é?”, pergunta-me Ana Rojas atrás de mim. “Uma raridade”, respondo, “um sapateiro”. Um sapateiro de remendar solas ou de botar solas novas, de sovela e cabedais, de fazer sapatos e botas à medida. Na vila de Portel ainda existe. Fronteiro ao largo onde a Câmara se planta.
Café Portugal - PASSEIO DE JORNALISTAS em Portel
A curiosidade empurra-me para dentro da botica. Ana acompanha-me. Contemplo as formas. Atento nas prateleiras. Nisto, ele – o sapateiro – está ao meu lado. De onde surgiu? Neste espaço de sombras, apareceu como se revelam os feiticeiros: assim, num piscar de olhos, num estalar de dedos. E tem voz: “Querem alguma coisa?”. “Queremos ver”. “Vejam”. Deixou-nos a mirar. Meto conversa: é sapateiro desde a meninice, lições aprendidas do pai, ofício arrastado de há mais de 40 anos. As rugas do rosto e os calos das mãos são-lhe a farda. O apelido disse-me. Para mim é O sapateiro, que hoje são tão raros que qualquer um é O.

Que encomendas são poucas: agora compra-se para bater e deitar fora. Mas ainda há quem mande fazer umas botas. Quem queira remendar a sola rota, ou meter biqueiras. O que já não existem são aprendizes, quem almeje ser continuador. “Vai dando, não muito mas vai dando…”, explica-me para justificar a teimosia de permanecer no seu posto, de não se deixar baldar pelo tempo e pelas modas do tempo.
Café Portugal - PASSEIO DE JORNALISTAS em Portel
Engraçou connosco. “Não bebem nada?” Como recusar? Abre a porta para desvendar outra sala, sala traseira, mais ampla esta, iluminada a lâmpadas temerosas de despir penumbras. Uma mesa grande, dois amigos sentados degustam chouriço assado e beberricam. Garrafa com tinto à disposição. Nas prateleiras um “utensílio” das Caldas. Na parede, afixada ementa de fazer corar os menos atrevidos e sem necessidade de malagueta. “Leiam, leiam”. Leio e riu-me. Ana quer ler: não lhe tapo os olhos que a nossa idade dispensa pudores. Afinal, aprendemos a ler nas escola e foi também para estas coisas que nos ensinaram.
Café Portugal - PASSEIO DE JORNALISTAS em Portel
Riem-se eles. Rimo-nos todos. Aventuramo-nos no chouriço e atrevemo-nos no tinto antes das despedidas.

As traseiras d’O sapateiro servem para acolher os amigos. Quando voltar a Portel, bato-lhe à porta: para comprovar resistências.

Fotos: Antunes Amor (direitos reservados)
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06 março, 2007

Itinerâncias (1)

Onde está o Degebe?


Onde está o Degebe? Procuro o conhecido e não o encontro: já ali não está. O “meu Degebe”, aquele que eu conheci em anos de reportar futuros, antevendo a então miragem do Alqueva; aquele em cuja foz deixei atolar um jeep para aflições de socorro pedido aos bombeiros de Portel – esse Alqueva já não existe. Foi rio, agora é mar. Desconheço a paisagem.
Café Portugal - PASSEIO DE JORNALISTAS em Portel
Estarreço ao olhar as águas que já vi meninas. Desci da aldeia de riba. Não percorri as picadas de outrora, tacteando matos. Agora vou pela estrada que de Portel leva à Amieira e, de repente… Águas gordas, marítimas – o regolfo. O imponente oceano do Alqueva. Com barcos que singram as imponências deste lago (dizem que é o maior que o homem “fabricou” nesta Europa). Barcos quase iates que navegam acenos às margens no que antes foi Guadiana e foi Degebe e foram todos os nomes. Barcos com solário, com sonares que salvam das armadilhas (ilhas ocultas) de um leito que de outro modo seria traiçoeiro. Barcos que transportam até doze pessoas, alugáveis prodígios para passear mar dentro, nos rumos da Estrela, de Moura, de Mourão, de Cheles. Maravilhas aproveitáveis por turistas de pés bem calçados.

Num destes barcos marinho eu mai-la companhia que o Rui trouxe ao Alqueva. Bebo silêncios. Mastigo sossegos. Visto-me de sol espojando-me no pequeno deck. E olho, olho, olho a bombordo e a estibordo em esforço de decifrar paisagens que eu já não conheço. Isto mudou, sim senhores. Apenas as vacas, ainda subversivas, continuam iguais ao que foram, modorrando o pasto até à beira-lago: são subversivas, recusam as leis, os regulamentos que as repelem da beira-água. E teimam em mostrar-se. Em ficar. Em resistir. Benditas sejam por isso mesmo.
Café Portugal - PASSEIO DE JORNALISTAS em Portel
Café Portugal - Nuno Rebocho
Café Portugal - PASSEIO DE JORNALISTAS em Portel
Café Portugal - PASSEIO DE JORNALISTAS em Portel
Café Portugal - PASSEIO DE JORNALISTAS em Portel

Para que serve este mar novo que cresceu no lugar de sobros e azinhos? Para irrigar solos, diz-se. Esperemos que seja. Que Portugal é lugar mais de esperas do que tem sido de esperanças, e o Alentejo que o diga. Mas fala-se em greens, em golfe. E eu receio.
Receio. Tanto que esperámos por este Alqueva. Agora não o matem.

Fotos: Antunes Amor (direitos reservados)
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Blogues de Montalegre e Barroso

Daqui a dez dias já iremos a caminho de Montalegre. Nesta fase, prepara-se o Programa de deslocação, visita e acolhimento dos participantes em mais uma edição do Passeio de Jornalistas.

Para quem quer antecipar visões e pormenores das terras que vamos percorrer, já aqui deixámos pistas sobre alguns sítios da net que contam aquelas paragens. Montalegre

Olhemos agora outro segmento cada vez mais importante do ciberespaço: os blogues!
A listagem que aqui apresentamos está, de certeza, incompleta. Por isso pedimos a ajuda dos frequentadores do Café Portugal, para que ela seja acrescentada (ou corrigida, se fôr caso disso).
Mas, para já, é o que temos:

05 março, 2007

SABORES PASSEADOS, (8)
- ideias ralas no Congresso das Açordas

CONGRESSO DAS AÇORDAS - Portel, Março de 2007
Falar de açordas?
gosto é de
comê-las...

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Já agora, repararam que sempre que nos vêm com modas novas e restrições é invocada a saúde pública? E que há uns, não sei se sonhadores se papalvos, que embandeiram em arco e vão de olhos fechado nessa onda do colectivo saudável. Lembram-se quando, muito preocupada com o nosso bem estar e a nossa boa forma física, a Dinamarca propôs a pasteurização das massas queijeiras. O que eu li por aí de aplauso a uma medida que ia matar germens, combater infecções e trazer saúde a rodos. Ingénuos, não perceberam que a indústria de laticínios dinamarquesa pressionava esta medida, não por estar preocupada com a qualidade de vida de cidadãos e consumidores mas, apenas, porque através da pasteurização conseguia quase anular as características distintivas dos diversos queijos. E depois de serem todos idênticos, eles até podiam fazer Queijo da Serra, Serpa, Ilha: passava a ser uma questão de alquimia e de rotulação.

Como diria o meu amigo José Quitério: já ando a ficar um bocado farto dessa história da saúde publica. Que para tudo dá... mas só para alguns serve! E também não percebi com que direito me querem obrigar à força a ser saudável.

Deixem-me com as açordas, não me obriguem a espargos de lata e não me retirem do mercado as mação com bicho. Que eu tenho medo é das outras, tão bonitas, tão calibradas, tão quimicamente tratadas. tão...

De tão asséptica que querem pôr a vida, o que é que irão proibir a seguir?

De Portel, a par do que já disse de esforço de divulgação das potencialidades de lazer e passeio, de envolvimento das comunidades na criação da riqueza que Alqueva pode vir potenciar, de sensibilização das camadas mais jovens para um futuro que pode estar aí mas que também lhes pode passar ao largo (por ausência de preparação escolar ou por negação de valores culturais que não podem ser desprezados, mas... de Portel, além de tudo isso, exijo um esforço de procura de qualidade da água. para que a açorda valha a pena.

Desculpem lá... acabei por quase não falar de açordas... Não que me tenha esquecido. Na verdade, nunca me passou pela cabeça falar delas. Porque o que eu gosto é de comê-las e sobretudo do passeio até chegar ao seu cheiro, à sua textura e ao seu sabor. È por isso, também, que venho tantas vezes ao Alentejo.

SABORES PASSEADOS, (7)
- ideias ralas no Congresso das Açordas

CONGRESSO DAS AÇORDAS - Portel, Março de 2007
Orfandade de referências e mão
de obra barata

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Mas que virtudes são essas as do alho? do alho da açorda. mas também do alho que, disposto em cruz e desenhado a azeite era reza para todas as maleitas. E se havia clínicos comentários jocosos acerca do obscurantismo das gentes, havia também opiniões médicas que não desfeiteavam de supetão essas outras formas de tratar doenças do corpo ou sofrimentos da alma. Até porque muitas vezes as “mulheres de virtude”- como se dizia em algumas partes de Alentejo - tinham o respeito de haverem sido as parteiras de gerações inteiras de conterrâneos.

Voltando às açordas, tenho para mim ser esforço meritório - mas de resultados sempre duvidosos, porque sempre inacabada - essa tarefa de determinar o que se ajuntava ao pão e à agua, ao alho e ao azeite para fazer as sopas. Porque...quase tudo o que de comestível houvesse e fosse possível agenciar...dava para fazer açorda. Ainda há uns dias, quando o Passeio de Jornalistas percorreu rotas de Alqueva e Portel, as refeições converteram-se em mostruário de misturas e combinações, de produtos e temperos, com que se pode tecer uma açorda.

Acrescentem-lhe mais alguns ingredientes que permitam que a insatisfação e a falta de horizontes de parcelas de camadas mais jovens de portelenses, se afirmem como orgulho de modos de vida e de sentimentos de pertença a uma comunidade que tão inventivas formas de subsistência foi criando para fazer face a todos os tipos de fomes. Para que os momentos de cobiça turística se não convertam em desapossamento, marginalização e quase expulsão.

Numa terra que é vossa, não podem ser desperdiçados quaisquer laivos de imaginação, envolvimento e iniciativa. E se é fundamental que os mais novos aprendam a manejar as ferramentas que as info-tecnologias vieram disponibilizar, não há grande futuro para comunidades que, não conhecendo as suas raízes nem valorizando o acervo cultural que os banha (ou devia banhar!), acabam órfãos de referências e convertidos em mão de obra barata e precária.

Até porque Espanha está aqui ao lado. Não sei se é bom ou mau... mas é uma inevitabilidade geográfica. Também... se não fossem os espanhóis nós não podíamos beber vinho a copo nos restaurantes porque a Fiscalização não deixava. Salvaram-nos os castelhanos com a tal ressalva à legislação comunitária para defesa da sua sangria. E nós lá pudemos voltar ao vinho a copo... às vezes, do lado de lá... também vem bom tempo.


Continua

SABORES PASSEADOS, (6)
- ideias ralas no Congresso das Açordas

CONGRESSO DAS AÇORDAS - Portel, Março de 2007
"Um homem
tem de levar lastro"

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Tenho de vos contar outra, mas descansem que já volto às sopas de pão. Agora vou num instante à Ilha Graciosa. Eu tinha chegado no voo da manhã e escolhido criteriosamente - num relance para a fila de carros de praça - o motorista que iria ser meu condutor, guia e companhia, nos 3 dias seguintes. Fomos à procura de local para me aboletar, depois o périplo da ilha, o almoço, a descida à caldeira... e o dia esfumou-se. Anoitecera já quando cruzei as portadas do Santa Cruz – que sendo nome de terra é designação do café mais importante do sítio. E estou eu naquele esforço de alargar horizontes de conversas e estabelecer diálogo com os locais, já tinha mesmo ultrapassado a fase de pagar umas cervejas e beber outras por conta, quando um rosto me olha fixamente e oiço:

- Mas eu já o vi hoje!.

A mim, que chegara tão discreto naquele voo da Sata e desaparecera de imediato para o percurso de reconhecimento?

- Não era você que estava à bocado do outro lado da ilha, com um taxi, naquele restaurante ao pé do mar?

Pois... tinha-me esquecido que a ilha só tem cerca de quarenta quilómetros estrada à volta e que todos eles já tinham reparado num estranho que deambulava por ali. Só faltava que fosse um fiscal de qualquer coisa...

Então e as sopas? As sopas??? estavam magníficas, eram do Espírito Santo, com pão bem molhado, caldo saboroso e rico de carnes. Comido até ao fim - noutra ilha, a do Faial - por receita de homem de mar com memória de décadas de temporal.

“Da maneira como o mar está, coma bem para ter que deitar fora...“, conselho sábio, porque a lancha da capitania que fora encarregada de me levar ao Pico... parecia um barquinho de papel nas mãos das ondas. Coisas das marés de Agosto, que prendiam os aviões à pista e paralisavam o Terra Alta. O mestre só nos deixou vir cá acima e tirar os coletes de salvação quando, nas cercanias do Ilhéu Deitado e do Ilhéu em Pé, e com o Porto da Madalena quase ao alcance da mão, a borrasca se fez calmaria e a ilha se desnudou áspera, imponente, esplendorosa.

Não fora o pão e o caldo e teria sido bonito. Ainda tinha nos ouvidos a voz do marinheiro velho:

- Com um mar deste, um homem tem de levar lastro...


Continua

SABORES PASSEADOS, (5)
- ideias ralas no Congresso das Açordas

CONGRESSO DAS AÇORDAS - Portel, Março de 2007
"Senhor Presidente,
posso citá-lo?"

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Vai mais uma historia e regresso a Castelo de Vide já com outro presidente de Câmara: o presidente Canário, primo daqueloutro Canário autarca no Barreiro(o que estava às portas de Lisboa era dos comunistas, o do Alentejo tinha-se quedados pelo PS).
Mas passemos á frente que isto em nada adianta para o caso... dizia eu que andava pelas bandas de São Mamede com um grupo de jornalistas que levara para aqueles lados. Almoçávamos um ensopado de borrego. No aceso das conversas, o presidente da Câmara descai-se dizendo que o Matadouro local funcionava sempre que era preciso e que, no quadro de pessoal da Câmara, conservava o veterinários e os funcionários dos ofícios adjacentes. “Senhor Presidente, posso citá-lo?”, pergunta o saudoso, e grande camarada desse ofício das notícias, Adriano da Carvalho, na altura trabalhando para a LUSA. “À vontade - responde o Canário presidente - porque sempre é melhor ser visto pelo veterinário antes do abate, do que morto debaixo de um chaparro como esse que os senhores estão a comer”.
Silêncio profundo a sublinhar o desconhecimento de que ninguém iria fazer cem quilómetros até à PEC para abater quadrúpede de tão reduzidas dimensões. “E se o meu porco é criado a bolota, o que é que eu levo para casa? do sangue que sai da tulha geral onde se mistura com o dos outros todos que só comem rações?” Foi outra pergunta que por ali surgiu... Como, além de não saber nada de gastronomia nem de turismo, a veterinária é para mim uma ciência do oculto, fiquei quedo a ver se ninguém dava pela minha presença...

Destas coisas das comedorias, não que dispense desvanecimentos e enleios do palato, gosto de guardar enquadramentos e afectos. Por isso, sempre que recordo Portel, vem-me à ideia aquele estabelecimento de petiscos, bebidas e convívios que havia ali no largo e deu em dependência bancária. Valia a pena trepar a escada até lá acima para umas sopas de pão ou uns chouriços assados naquela lareira que dava para sentar, conversar, saborear... mas sobretudo para estar acompanhado. Porque, como me costumam lembrar sempre que ao Alentejo vou, nunca se viu um alentejano a cantar sozinho.

Isto de passear não é fácil. Principalmente o passear de obrigação, o chegar a uma terra e não ter ninguém à espera, o ser obrigado a rapidamente travar conhecimentos, entabular conversas, a procurar perceber como se movem os dias e se ajeitam as vidas desse lugar.


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04 março, 2007

SABORES PASSEADOS, (4)
- ideias ralas no Congresso das Açordas

CONGRESSO DAS AÇORDAS - Portel, Março de 2007
Condenar à morte
o país rural...

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Nunca se falou tanto de gastronomia nem se referenciaram tantos gastrónomos... mas eu encho-me de dúvidas quando escuto certas perorações acerca da declaração, por decreto, dos saberes e dos comeres como património cultural português. Não sei mesmo se ainda vamos a tempo de atalhar ou inverter o sentido das coisas: porque arriscamos que a nossa gastronomia um dia destes seja arquivada na gaveta do denominado património imaterial. Não por falta de receitas ou de esforço em as recolher, estudar e testar, mas por ausência de produtos nossos, cultivados nos nossos campos, criados com o nosso clima e as nossas especificidades agro-ambientais.

Há uns três ou quatro anos, preparava eu uma emissão em directo para as bandas da Vidigueira. Ouvi chamarem pelo meu nome com uma voz que me era familiar, olhei na direcção do vocativo e reconheci o Vilas, mestre pintor de tela e pratos, bom conversador, bom copo e bom garfo, com pouso certo e porto seguro lá para as bandas do Algarve. Disse-me que vinha a ouvir a rádio, que tinha sabido que eu estava por ali e decidira ir cumprimentar. Mas o que é que aquela alma de cristo andava a fazer pelo Alentejo? Lá me foi contando que cada vez era mais difícil arranjar grão para a sopa de rabo de boi – especialidade da casa. “O que anda aí pelo mercado é da Turquia e não coze como o nosso”. Tinham-lhe dito que ainda havia quem fizesse grão no Alvito, e ele veio por aí acima, ás carreiras, a ver se consegui algum.

Porque, por muito boas que sejam as mão de uma mulher que sabe amassar e por muito sábias que sejam as artes de levedar, o que não falta por aí é trigo com sabor a outras paragens. E ainda nem chegámos aos transgénicos...

Nestas e noutras coisas, sempre gostámos de começar pelo telhado. E assim, ao mesmo tempo que arriscamos a perder muito do património de sabores da nossa cozinha porque não há produtos da nossa terra disponíveis para a confeccionar, simultaneamente, estamos a condenar à morte o país rural. Uma vezes por desconhecimento, outras por desleixo, outras porque o interior não dá votos já que os eleitores se amontoam no litoral, outras porque faltam as medidas de discriminação positiva onde sobram imposições legais, regulamentos comunitários ou dislexias jurídicas de paróquia.


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SABORES PASSEADOS, (3)
- ideias ralas no Congresso das Açordas

CONGRESSO DAS AÇORDAS - Portel, Março de 2007
Sons
de manducar

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Isto dos comeres e dos beberes é também acto social cercado de manifestações lúdicas e estéticas. Um aspecto que quase não reparamos é o das sonoridades: dos talheres aos copos, das conversas ao retirar de uma rolha, do arrastar de uma cadeira ao abrir de uma porta. Tudo, claro está, antes daquela peregrino hábito de povoar os restaurantes de toques de telemóveis ou de conversas gritadas para um interlocutor invisível atroando os sentidos de quem nas mesas em redor se encontra instalado.

Esta história dos sons tem muita importância. Lembro-me que, já lá vão uns 20 anos, quando comecei a fazer ouvir em directo na rádio o ruído de um vinho que escorre para um copo e tornava audível os movimentos de um garfo ou de uma faca, ouve quem ficasse muito incomodado e viesse sentenciar que eram coisas que se não faziam, davam mau aspecto, entendem? Volvidos estes anos, agora toda a gente imita... assim como toda a gente explana teorias sobre gastronomia e similares. Toda a gente... menos eu, que continuo a não saber nada disso. E já é a tarde para aprender.

Recordo um outro dia cedo de fim de Inverno. Devia ser quase por esta altura do ano, a rádio fora amanhecer a Castelo de Vide. Antes de chegarmos às boleimas, e depois do café da brasa, fazíamos honras a uma migas. Refeição leve... que, para início de jornada, não deve haver muito esforço e (conforme repetia Carolino Tapadejo, então presidente da Câmara Municipal) um homem não é de ferro...!!! Estávamos neste despropósito, lá para as bandas da Carreira de Cima, quando apareceu um cidadão qualquer que estava a ouvir a rádio e foi lá de propósito para saber se era verdade que estávamos a comer ou se eram apenas efeitos especiais. Como se nós fôssemos nessa coisa de comer os cenários...


Continua

SABORES PASSEADOS, (2)
- ideias ralas no Congresso das Açordas

CONGRESSO DAS AÇORDAS - Portel, Março de 2007
Logo a seguir
à Cova de Iria...

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Tive a dita de, só muito raramente, a descoberta dos sabores e outros prazeres da mesa ter resultado do risco calculado decorrente da denominação constante do cardápio de um qualquer restaurante. Quase sempre, ela derivou de sugestão avisada, curiosidade aguçada por cavaqueira amena ou intencional desafio. Lembro uma jornada gastronómica no Rossio de São Brás em Évora, batia-me eu com uma magnífica açorda de queijo. Vendo como estava a gostar do queijo cozido, perguntaram-me se alguma vez o tinha comido assado.... Respondi que não, e logo ali o foram assar: manjar de deuses!

Ou recordo a estranheza da primeira vez que provei a de cardos. Fiquei renitente: cardos? seria eu alguma cabra para ir tosar mato? Mas depois, quando – em vez de ásperos - os rebentos me surgiram macios e sedosos, o prazer foi indisfarçável e o sabor caminhou direitinho do palato para o meu álbum de recordações.

Faço quilómetros a caminho de uma aldeia de Mora para uma miga-gata de bacalhau, passei a reconhecer a hortelã da ribeira, a andar à procura dos espargos bravos, a fazer desvios só por causa de umas migas com carne de alguidar. O gaspacho andaluz não me seduz, prefiro os do Alentejo, mesmo quando se chamam de capachinho(1) ou vinagrada. E ao rico, prefiro o pobre.

Cada vez mais dou razão a esse senhor das ciência do Turismo que se chama José Carrasco quando ele conclui que a gastronomia é o segundo produto turístico mais importante de que dispomos, logo a seguir à Nossa Senhora de Fátima... Haverá outro, além da Cova de Iria, que leve tão grandes grupos de pessoas a fazer cem, duzentos quilómetros só porque combinaram um almoço ou um jantar num qualquer santuário de comedorias??? Talvez antes ou depois da refeição, se tiverem tempo, visitem esta ou aquela atracção local... porque o que eles lá foram fazer foi... comer e confraternizar à volta de uma mesa.


_______________
(1) Corruptela de caspachinho, um diminutivo de caspacho, termo porque também é designado o gaspacho.

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SABORES PASSEADOS, (1)
- ideias ralas no Congresso das Açordas

CONGRESSO DAS AÇORDAS - Portel, Março de 2007
De granito,
sobre o vale...


Ainda não entendi muito bem porque é que me convidaram para o Congresso das Açordas: se de artes culinárias nada sei, além do prazer de saborear... e se, em relação às ciências do turismo, do que eu gosto... é de passear! Nunca me passaria pela cabeça converter uma refeição em terreno de prova nem transformar as minhas deambulações em exercício de roteiro turístico. Gosto dos acasos, dos encontros de ocasião, das marés de conversa, do ir para aqui ou para ali conforme sopra o vento da vontade e do desejo. Por isso frequentemente dou comigo, nos regressos, em exercícios de leitura à posteriori, para melhor aperceber coisas que fui observando e registando.

Embora me não negue a Passear Sabores, sempre gostei mais dos Sabores Passeados. Que é como quem diz... fruídos e desfrutados nas paragens onde foram surgindo como resposta às necessidades de sustento de gentes que, em diálogo com os ecossistemas, encontraram/construíram formas originais de alimentação a partir dos produtos que tinham disponíveis ou a que podiam aceder. E sei perfeitamente que aquele gaspacho com água da fonte, que nos princípios de 80 comi em Torre de Coelheiros, é (como tudo o que aliás lá vivi e senti) irrepetível na Lisboa que habito... porque nunca terei aquela água que o caldeava, nem as circunstâncias que o marcaram.

Por isso gosto de resguardar na memória os sabores que vou provando por aí. E que acabam datados, localizados, associados a rostos e passagens por terras e paisagens.

Ainda miúdo, recordo a confusão entre uma açorda quase enxuta que podia ser de couve ou de marisco e aquela a que o me pai, que era de Sines, chamava de alho, e que mais me pareciam umas sopas de pão com alho e coentros. Já menino, em casa da tia-avó – um monte não muito longe da estrada que vai de Santiago do Cacém para o Cercal - fui desfazendo confusões com sopas de tomate (de fatia inteira de pão e chicharro afogado em caldo), habituei-me a reconhecer a hortelã, aprendi o porco de montado e a manteiga amarela.

Sabores bem distintos daquela outra casa, de granito, com janela aberta para o vale - ao fim de tarde invadido por cantos de mulher, separados na lonjura, mas conversados no desafinado que transportava os sons até aos montes à volta e lhes devolvia os ecos... Aí era o Minho e as terras da Nóbrega, e as sopas casavam o milho moído com as couves e o feijão que secara estendido no sobrado da casa. E eram outras raízes, as de minha mãe.

Eu era um criança de sorte... com férias grandes de ceifas, horizontes largos de Alentejo e mergulhos na praia de Sines ou em São Torpes, e leiras, moinhos de água, desfolhadas e vindimas em Sampriz, com feira (às quartas) em Ponte da Barca ou nos Arcos.

Continua

01 março, 2007

CONGRESSO DAS AÇORDAS em Portel
tem a participação do Café Portugal

Congresso das Açordas - Portel
Um membro deste Blogue marca presença no Congresso das Açordas em Portel. Passeando Sabores é o titulo da comunicação que, amanhã à tarde, será apresentada por Rui Dias José, num painel em que participam Maria de Lurdes Modesto (As Açordas com que cresci), Vitor Sobral (Pão, azeite, alho e coentros: a receita mais simples) e Isabel do Carmo (A Açorda é boa para a saúde).

Antes disso, a manhã é dedicada à "Memória dos Sabores Mediterrânicos", uma sessão que conta com a intervenção de Cláudio Torres, Alfredo Saramago e Monarca Pinheiro.

O Congresso encerra no sábado cruzando percursos gastronómicos e turísticos numa abordagem das estratégias para uma oferta de qualidade. O ex-Secretário de Estado do Turismo, actual vice-presidente da Associação Industrial Portuguesa, Vitor Neto, integra a Mesa Redonda de que fazem parte, entre outros, o gastrónomo e hoteleiro Manuel Fialho (em representação da ARESP) e Francisco Manuel Sabino da Confraria de Gastrónomos do Alentejo.

27 fevereiro, 2007

À sombra do grande lago

"Portel. Todo um concelho na palma da mão é o que foi. Viajar cá por dentro, é o que é. Um concelho que desfruta soberanemente de inúmeras condições para sermos felizes. Do património, da brancura das casas, até ao grande lago. Os romanos já o gozavam, faz muitas luas. Namorámos lá."

Eduardo Miragaia, na Epicur, conta aventuras do PASSEIO DE JORNALISTAS em Portel. As fotografias são do Antunes Amor.
Clique aqui para consultar em formato PDF.

26 fevereiro, 2007

Podem começar já a passear Montalegre

Café Portugal - PASSEIO DE JORNALISTAS a Montalegre(Clique no mapa para ampliar)
Para quem quiser antecipar a expedição a Montalegre ou, quem sabe, programar a sua própria viagem ou, tão só, encetar um reconhecimento virtual... aqui ficam alguns endereços:

Ou, se quiserem saber o que por lá se anda a fazer na área da comunicação audio-visual:

Quase a escorregar para a Galiza.

Café Portugal - PASSEIO DE JORNALISTAS em MontalegreNo extremo Norte, quase a escorregar para a Galiza... e sempre com história de idas e vindas, de amores e comércios transfronteiriços.
As rotas do contrabando foram caminhos de sobrevivência de comunidades e manancial de histórias e cantos...
As aldeias decidiam quem "ias às sortes" e punham a salvo, do outro lado, os não eram para cumprir o serviço militar.

Tempos em que as "chegas de bois" não eram espectáculo de turista ou emigrante em férias mas desafio de força e virilidade do boi comunitário. Que tinha direito aos melhores lameiros.
Depois vieram "as limousines" e outras raças bárbaras, foram-se os braços de trabalho... e agora não há quem tome conta do "boi do povo".
Permanecem paisagens e ambientes quase sem mácula e uns quantos "irredutíveis" nas suas aldeias. Da espécie de Axterix, mas sem poção mágica... Há outras mezinhas... mas apesar do esforço do druída, não conseguiram interromper o ciclo da desertificação.

Para ir para Chaves até há pouco o melhor caminho era para Espanha. Pela Galiza se continua a ir para Ponte da Barca ou Melgaço. A cidade importante mais próxima está em Salamanca, Chega-se mais facilmente a Ourense que a Braga. E, por boas estradas, está-se em Vigo num instante...

25 fevereiro, 2007

E, quando alguém batia à porta, eles respondiam:
"Entre quem é!"

Café Portugal - PASSEIO DE JORNALISTAS  em Montalegre

Em Barroso,

com o
PASSEIO DE JORNALISTAS



Até terras de Barroso, no extremo norte, na pista de nomes mágicos e segredos de isolamento e sobrevivência: Pitões de Júnias, Tourém, Vilar de Perdizes... e no desfiladeiro - dito do Diabo - a Ponte da Misarela e os milagres da fecundidade...

São terras de serra dura donde a emigração leva braços e energias...

O futuro pode ser turismo, pode ser pecuária, pode ser fumeiro, mas será sempre GENTE e apostas da sua fixação.

Saímos em busca de rostos, de paisagens, de horizontes e de sabores.

Apetece-nos o presunto, o salpicão, a chouriça de carne ou de abóbora, a sangueira e a alheira. Haveremos de querer provar o cabrito da serra ou a vaca dos lameiros de Barroso, apenas com umas batatas e umas couves. E depois... um chá de ervas aromáticas.

Apetecem-nos as vistas das barragens, as bruxas encantadas, as danças de roda, as histórias à lareira, a queimada...

Com Espanha à vista e a Primavera por perto, em Montalegre!



16 - 17 - 18 - Março

24 fevereiro, 2007

Tudo a Norte...
até Montalegre!

Café Portugal - PASSEIO DE JORNALISTAS em Montalegre

E aí está o próximo PASSEIO DE JORNALISTAS. São as terras de Barroso, é Montalegre, já na raia de Espanha, bem encostada à Galiza.

16, 17 e 18 de Março é a data da surtida. Que desta vez casa comboio e autocarro, mete Queimada de Bruxas, muitas barragens e rios, uma paisagem lindíssima e um território cada vez mais desertificado.

Tantas coisas para ver... e outras tantas para contar!